Descrição da biblioteca
ou o Livro de Montevidéu
quase sempre um labirinto. não uso banco, subo na mesa à procura do livro que comprei num sebo em Montevidéu, na rua da feira de antiguidades, o ano não me lembro, a capa sim, perfeitamente. mas não a encontro, e de súbito me vejo afastada da solidez das prateleiras, naquele instante nenhum título me interessa, tampouco a madeira envergada, a um passo de me trair: quero apenas o livro que não encontro, mas sei que existe, tento me lembrar se
o emprestei?
(para algum amigo)
o esqueci?
em algum café, mas não seria possível, isso não condiz
com o meu caráter
ando com livros rente ao peito e cobro, por telefone, os amigos que não devolvem, escuta aqui, meu caro, preciso das minhas anotações. se a confusão inebriante da minha biblioteca revela qualquer coisa sobre mim, decerto é pelo que anoto ao lado do que li, de modo tão errante e ilegível quanto as fileiras intermináveis dos livros que
eu ia dizer coleciono, mas
colecionar não é a palavra certa.
talvez seja eu a colecionada, a eles também devo parecer labiríntica, em pé na pobre mesa que me sustenta enquanto penso onde está o maldito livro de Montevidéu. preciso dele, lá tem uma cena que se deitou numa frase, ela sussurra algo que já não me lembro completamente, mas sei da importância, e sem isso não consigo escrever. minha biblioteca, portanto, é meu cavalo de força, minha fábrica, o pedal da minha bicicleta.
há dias em que ela acorda mais tranquila, naturalmente. isso acontece também com as crianças. há dias em que o menino apenas lê na poltrona como se nunca tivesse sido o garoto de ontem, que quase matou um gato de susto. é como se já não soubesse mais sê-lo, e até seu futuro promete repetir o presente, numa tão sonhada imobilidade que não deixa de ser assustadora. em dias assim, onde o mundo parece uma foto, não preciso subir na mesa. apenas paro diante da minha biblioteca e por fim encontro o livro de Montevidéu. talvez nem precise pegá-lo. sei que ele está ali, sei que ele me sabe, e isso é tudo.
(Diego, por Alberto Giacometti)



Aline, te ler é o que sempre me faz lembrar que ainda vale a pena seguir, mesmo nos piores dias. Como hoje.
Ler você é alento. É (re)conhecer um pedaço da minha alma fora de mim. Você me deixa assim, toda poética, Aline.