mas é uma encenação
era um pequeno teatro o lugar onde me formei como atriz. ficava na rua Barão de Iguape, na Liberdade, o número não me lembro, mas tinha 3 e tinha 1. sei que a escola se mudou de lá, o teatro onde estudei não existe mais, o que vem a calhar, porque a atriz que fui, do lado de fora, também não existe, e às vezes penso que a sonhei.
eu poderia voltar àquela rua, ver o que o teatrinho, por fim, se tornou. talvez uma loja de flautas, embora eu saiba que é mais provável que tenha se tornado um prédio na estranha cidade com nome de santo onde vivo.
é claro que eu poderia ir até lá, chego a pegar a bolsa, escuto o barulho da chave.
mas é uma encenação, prefiro guardar o teatro do modo como ele permaneceu em mim, difuso, etéreo, feito de madeira e metáfora, com dois andares, um que se revela e outro que se esconde, como nas lojas que precisam do estoque para guardar os sapatos dos que ainda virão. se não vierem, se não descobrirem nunca o quanto precisam deles, os sapatos – em especial os muito grandes ou então os bem pequenos, para pessoas mínimas – entrarão num desconto que começa em 20, termina em 60 por cento, até que o sapato se revele apenas um estorvo, bem, na verdade dois:
iliquidáveis, envolvidos pela poeira musical dos eternos.
o chão do que escrevo é feito da memória desse teatro, que alcanço em poucas ruas desdobráveis no pensamento. empurro a porta antirruído, perpasso e sou por um instante a velha cortina de veludo. sigo pelo corredor de uma plateia ingênua, destinada aos amigos e família dos jovens atores daquele tempo. uma escada conduz ao palco e parte de mim
s
o
b
e
para começar o
aquecimento.
da plateia, minha outra parte, de terno tweed, coloca uma música.
depois de certo tempo, nunca se sabe quanto, parece até que a Morte virá primeiro, minha parte vê (vejo?) nascer (oh!) muito lentamente um personagem. mas não se agita, mão no queixo faz perguntas, no caderno milhares de anotações:
à noite
não entenderá uma palavra da própria letra.
é quando minha parte sobe ao palco, a fim de orientar
a figura.
mas não a encara, sabe que os fantasmas existem
apenas para serem pressentidos.
(*na foto, Peter Brook)



o que mais amo na sua escrita é essa brincadeira com as palavras, a gente sobe no palco junta!
tem coisas que é melhor conservar na memória do que descobrir uma realidade que não tem a mesma graça.